domingo, 22 de março de 2009

ARTIGO: Barack Obama e o Brasil


Por Zulu Araújo
Presidente da Fundação Cultural Palmares / Ministério da Cultura

Para além de todo proselitismo que cercou a eleição do primeiro presidente negro dos Estados Unidos, constata-se, de fato, um enorme avanço na percepção da sociedade americana em relação ao combate ao racismo. Para um país que até recentemente praticava a discriminação racial de forma legal, eleger Barack Obama Presidente da República constituiu-se numa significativa revolução política e social.

Mas é preciso olhar esse fato histórico de maneira um pouco mais acurada. Por um lado, o forte simbolismo que representa essa eleição. Maior potência do mundo, os Estados Unidos, além da força militar e econômica, são também influente no campo das idéias. Por isso, essa eleição representa recolocar na agenda política internacional, não apenas o sonho da igualdade racial, mas também o sonho e a esperança a serviço de um mundo multilateral, em que a autonomia e as diferenças entre os povos sejam respeitadas, onde o diálogo e o convencimento sejam as principais ferramentas de negociação entre as nações e não os mísseis, as invasões, as torturas e as guerras. Um mundo em que a Convenção da Proteção da Diversidade e das Expressões Culturais, aprovada pela Unesco, seja um instrumento real do reconhecimento das múltiplas formas de manifestações culturais, de tradições e de saberes dos povos, sem que tenham obrigatoriamente transformar-se em produtos ou mercadorias, como advogou os representantes norte-americanos quando da sua aprovação.

Por outro lado, faz-se necessário destacar que este fato histórico representa o apogeu de uma luta que se iniciou há muito. País com tradição racial segregacionista recheada de intolerâncias e tragédias, os Estados Unidos foram palco de inúmeras lutas e experiências que influenciaram boa parte do mundo no trato da questão racial. Desde a coragem de Rosa Parks, aquela costureira negra, que, no dia 1º de dezembro de 1955, se recusou a ceder o seu lugar no ônibus a um branco, até a eleição de Barack Obama presidente, muita água rolou por baixo desta ponte. Ora de maneira trágica com os linchamentos, assassinatos e agressões perpetradas pela Ku Klux Kan e seus seguidores, ora com a reação de líderes como Martin Luther King e Malcom X e organizações como os Panteras Negras que mobilizaram milhões de pessoas nos Estados Unidos e no mundo contra esta iniqüidade que é o racismo. No meio de todos esses episódios tivemos casos hilariantes, como a decisão da Suprema Corte norte-americana que julgou pela inconstitucionalidade, de uma lei aprovada pelo Congresso Nacional norte-americano que considerava livres os escravos que fossem desbravar o oeste daquele país, alegando que o Congresso não tinha poderes para banir a escravidão, mesmo em território federal, e que os negros não poderiam ser considerados cidadãos, pois não faziam parte do povo americano.

Esse breve apanhado histórico serve para balizar a discussão decorrente da eleição do primeiro presidente negro da maior potência do mundo e suas conseqüências mais diretas para o Brasil. Serve também para entendermos melhor e cobrarmos mais ainda da elite brasileira, as razões pelas quais a enorme euforia demonstrada com a eleição de Obama, não se manifesta minimamente no apoio à luta dos afro-brasileiros por um tratamento igualitário em nossa sociedade.

O Brasil precisa saber que a eleição de Barack Obama não foi fruto de nenhum milagre, nem muito menos da decisão dos homens de bem que comandam os Estados Unidos, mas sim de um poderoso movimento que ao longo de cinqüenta anos conseguiu sustentar a implementação de ações afirmativas que viabilizaram o acesso de milhões de afro-americanos ao ensino superior, assim como a ocupação de vários postos importantes de direção daquele país, tanto no setor público como no setor privado, a exemplo de Jesse Jackson, Colin Power, Condolezza Rice e tantos outros, independente de suas posições político-ideológicas.

Infelizmente a superação plena das desigualdades raciais no Brasil, país líder da América Latina, ainda é um sonho a ser conquistado e uma das razões do adiamento deste sonho é a resistência recalcitrante de parte da nossa elite econômica, política e intelectual sobre a necessidade do Brasil adotar medidas efetivas de promoção da igualdade no campo racial. Mesmo com metade da população sendo afro-descendente, eleger um presidente negro no Brasil parece um sonho ainda muito distante. Pesquisa recente do jornal Folha de S. Paulo revela isso. Embora apenas 3% dos entrevistados tenham declarado abertamente seu preconceito, para 91%, os brancos têm preconceito de cor em relação ao negro. Apenas por esse dado constata-se o quanto de trabalho temos pela frente para vencer o racismo inercial existente no Brasil. Nem mesmo Deus sendo brasileiro, como muitos afirmam, conseguimos apagar as conseqüências dos 400 anos de escravidão que vivemos. Por isto mesmo, investir nas políticas de ações afirmativas para a promoção da igualdade em nosso país, não é uma opção, é uma obrigação. Mais ainda, não pode resumir-se exclusivamente em cotas para negros na universidade, embora a educação seja um fator fundamental para alterarmos nossa realidade excludente. E, para quem, ainda insiste em considerar privilégio essas ações, vale citar aqui a declaração lapidar do ministro do Supremo Tribunal Federal, Joaquim Barbosa de que as ações afirmativas é "favorável àqueles que historicamente foram marginalizados, de sorte a colocá-los em um nível de competição similar ao daqueles que historicamente se beneficiaram da sua exclusão". Simples, como água.

Esperamos, pois, que a eleição de Barack Obama possa massagear os pontos sensíveis da sociedade brasileira e nos ajudar a revelar um outro Brasil. Um Brasil ungido pelo sentimento de fraternidade e igualdade a fim de produzir uma outra página na nossa história, com liberdade e democracia, e apagar de vez essa estrutura excludente e discriminatória com base na cor da pele, como querem alguns. Quem sabe assim, em breve, produziremos o nosso Obama?

sexta-feira, 20 de março de 2009

Prof. Wesley, uma amigão me mandou esse texto. É interessante... Abraços

Pedro Paulo Pereira Pinto, pequeno pintor português, pintava portas, paredes, portais. Porém, pediu para parar porque preferiu pintar panfletos. Partindo para Piracicaba, pintou prateleiras para poder progredir. Posteriormente, partiu para Pirapora. Pernoitando, prosseguiu para Paranavaí, pois pretendia praticar pinturas para pessoas pobres. Porém, pouco praticou, porque Padre Paulo pediu para pintar panelas, porém posteriormente pintou pratos para poder pagar promessas. Pálido, porém personalizado, preferiu partir para Portugal para pedir permissão para papai para permanecer praticando pinturas, preferindo, portanto, Paris. Partindo para Paris, passou pelos Pirineus, pois pretendia pintá-los. Pareciam plácidos, porém, pesaroso, percebeu penhascos pedregosos, preferindo pintá-los parcialmente, pois perigosas pedras pareciam precipitar-se principalmente pelo Pico, porque pastores passavam pelas picadas para pedirem pousada, provocando provavelmente pequenas perfurações, pois, pelo passo percorriam, permanentemente, possantes potrancas. Pisando Paris, permissão para pintar palácios pomposos, procurando pontos pitorescos, pois, para pintar pobreza, precisaria percorrer pontos perigosos, pestilentos, perniciosos, preferindo Pedro Paulo precaver-se. Por profundas privações passou Pedro Paulo. Pensava poder prosseguir pintando, porém, pretas previsões passavam pelo pensamento, provocando profundos pesares, principalmente por pretender partir prontamente para Portugal. Povo previdente! Pensava Pedro Paulo... Preciso partir para Portugal porque pedem para prestigiar patrícios, pintando principais portos portugueses.

- Paris! Paris! Proferiu Pedro Paulo. - Parto, porém penso pintá-la permanentemente, pois pretendo progredir. Pisando Portugal, Pedro Paulo procurou pelos pais, porém, Papai Procópio partira para Província. Pedindo provisões, partiu prontamente, pois precisava pedir permissão para Papai Procópio para prosseguir praticando pinturas. Profundamente pálido, perfez percurso percorrido pelo pai.. Pedindo permissão, penetrou pelo portão principal. Porém, Papai Procópio puxando-o pelo pescoço proferiu: Pediste permissão para praticar pintura, porém, praticando, pintas pior. Primo Pinduca pintou perfeitamente prima Petúnia. Porque pintas porcarias?

- Papai, proferiu Pedro Paulo, pinto porque permitiste, porém, preferindo, poderei procurar profissão própria para poder provar perseverança, pois pretendo permanecer por Portugal. Pegando Pedro Paulo pelo pulso, penetrou pelo patamar, procurando pelos pertences, partiu prontamente, pois pretendia pôr Pedro Paulo para praticar profissão perfeita: pedreiro! Passando pela ponte precisaram pescar para poderem prosseguir peregrinando. Primeiro, pegaram peixes pequenos, porém, passando pouco prazo, pegaram pacus, piaparas, pirarucus. Partindo pela picada próxima, pois pretendiam pernoitar pertinho, para procurar primo Péricles primeiro. Pisando por pedras pontudas, Papai Procópio procurou Péricles, primo próximo, pedreiro profissional perfeito. Poucas palavras proferiram, porém prometeu pagar pequena parcela para Péricles profissionalizar Pedro Paulo. Primeiramente Pedro Paulo pegava pedras, porém, Péricles pediu-lhe para pintar prédios, pois precisava pagar pintores práticos. Particularmente Pedro Paulo preferia pintar prédios. Pereceu pintando prédios para Péricles, pois precipitou-se pelas paredes pintadas. Pobre Pedro Paulo, pereceu pintando... permita-me, pois, pedir perdão pela paciência, pois pretendo parar para pensar.... Para parar preciso pensar. Pensei. Portanto, pronto pararei.

domingo, 15 de março de 2009

Link para artigo da Veja

Acesse para o texto da VEJA

http://www.google.com.br/search?q=O+que+est%C3%A3o+ensinando+a+ele%3F+Revista+Veja+Monica+Weinberg+e+Camila+Pereira&ie=utf-8&oe=utf-8&aq=t&rls=org.mozilla:pt-BR:official&client=firefox-a


Título: Você sabe o que estão ensinando a ele?

É o quarto link de cima para baixo.


Abraços e boas leituras críticas, sempre.

NOTA DE REPÚDIO

Fiz mais algumas pesquisas sobre a reportagem da Veja e encontrei esta "Nota de Repúdio" que disponibilizo também.
Abraços
Alexandre




"Mais uma vez, a Revista Veja (Editora Abril) se superou em superficialidade e falta de compromisso com os valores éticos da prática jornalística e da função social da comunicação. Em matéria intitulada: "Você sabe o que estão ensinando a ele?" (Edição Nº 33, de 20 de agosto de 2008), assinada por Monica Weinberg e Camila Pereira, desfere raivoso ataque contra os docentes brasileiros.

Sob aparente pretexto de discutir a educação no Brasil, a publicação conclui de forma simplista e com intenção duvidosa que a baixa qualidade de ensino no País é responsabilidade dos professores que, ao invés de ensinarem o conteúdo de suas disciplinas, dedicam-se ao discurso ideológico dentro das salas de aula.

Agarrado ao pouco que restou de sua credibilidade, especialmente no meio midiático, mas também junto aos leitores mais atentos, o veículo sai em defesa da necessidade de neutralidade e, de maneira irresponsável, conclama os pais a promoverem patrulha ideológica nas escolas, controlando o que é ensinado pelos professores.

A temerosa reportagem insinua ainda que a responsabilidade em relação à qualidade da educação está vinculada apenas à ação individual dos professores, desconsiderando propositalmente o complexo fenômeno educacional, que envolve ações e políticas públicas, condições de trabalho e gestão, questões sociais e culturais.

Por meio desta reportagem, Veja presta um desserviço à sociedade. E diante da oportunidade de realizar um debate sério se revela novamente porta-voz de segmentos conservadores e antidemocráticos que sob a égide da "pseudo" neutralidade apregoam uma educação conservadora e acrítica - distante de preceitos reais de qualidade de educação capazes de oferecer uma formação cidadã e de contribuir para a consolidação democrática da sociedade brasileira.

Declaramos nosso compromisso com a luta pela educação como um direito, bem público e de qualidade a todos, e conclamamos a sociedade brasileira a se solidarizar com que dignamente faz da sua atividade docente instrumento da construção da cidadania e do desenvolvimento nacional".

CONTEE - Confederação Nacional dos trabalhadores em estabelecimentos de ensino
CNTE - Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação

CARTA DE REPÚDIO

Como educadora, historiadora, ex-professora da PUC e da Cátedra Paulo
Freire e viúva do maior educador brasileiro PAULO FREIRE -- e um dos
maiores de toda a história da humanidade --, quero registrar minha
mais profunda indignação e repúdio ao tipo de jornalismo, que, a cada
semana a revista VEJA oferece às pessoas ingênuas ou mal intencionadas
de nosso país. Não a leio por princípio, mas ouço comentários sobre
sua postura danosa através do jornalismo crítico. Não proclama sua
opção em favor dos poderosos e endinheirados da direita, mas ,
camufladamente, age em nome do reacionarismo desta.

Esta vem sendo a constante desta revista desde longa data: enodoar
pessoas as quais todos nós brasileiros deveríamos nos orgulhar. Paulo,
que dedicou seus 75 anos de vida lutando por um Brasil melhor, mais
bonito e mais justo, não é o único alvo deles. Nem esta é a primeira
vez que o atacam. Quando da morte de meu marido, em 1997, o obituário
da revista em questão não lamentou a sua morte, como fizeram todos os
outros órgãos da imprensa escrita, falada e televisiva do mundo,
apenas reproduziu parte de críticas anteriores a ele feitas.

A matéria publicada no n. 2074, de 20/08/08, conta, lamentavelmente
com o apoio do filósofo Roberto Romano que escreve sobre ética,
certamente em favor da ética do mercado, contra a ética da vida criada
por Paulo. Esta não é, aliás, sua primeira investida sobre alguém que
é conhecido no mundo por sua conduta ética verdadeiramente humanista.

Inadmissivelmente, a matéria é elaborada por duas mulheres, que,
certamente para se sentirem e serem parceiras do "filósofo" e aceitas
pelos neoliberais desvirtuam o papel do feminino na sociedade
brasileira atual. Com linguagem grosseira, rasteira e irresponsável,
elas se filiam à mesma linha de opção política do primeiro, falam em
favor da ética do mercado, que tem como premissa miserabilizar os mais
pobres e os mais fracos do mundo, embora para desgosto deles, estamos
conseguindo, no Brasil, superar esse sonho macabro reacionário.

Superação realizada não só pela política federal de extinção da
pobreza, mas , sobretudo pelo trabalho de meu marido - na qual esta
política de distribuição da renda se baseou - que demonstrou ao mundo
que todos e todas somos sujeitos da história e não apenas objeto dela.
Nas 12 páginas, nas quais proliferam um civismo às avessas e a má
apreensão da realidade, os participantes e as autoras da matéria dão
continuidade às práticas autoritárias, fascistas, retrógradas da cata
às bruxas dos anos 50 e da ótica de subversão encontrada em todo ato
humanista no nefasto período da Ditadura Militar.

Para satisfazer parte da elite inescrupulosa e de uma classe média
brasileira medíocre que tem a Veja como seu "Norte" e "Bíblia", esta
matéria revela quase tão somente temerem as idéias de um homem
humilde, que conheceu a fome dos nordestinos, e que na sua altivez e
dignidade restaurou a esperança no Brasil. Apavorada com o que Paulo
plantou, com sacrifício e inteligência, a Veja quer torná-lo
insignificante e os e as que a fazem vendendo a sua força de trabalho,
pensam que podem a qualquer custo, eliminar do espaço escolar o que há
de mais importante na educação das crianças, jovens e adultos: o
pensar e a formação da cidadania de todas as pessoas de nosso país,
independentemente de sua classe social, etnia, gênero, idade ou religião.

Querendo diminuí-lo e ofendê-lo, contraditoriamente a revista Veja nos
dá o direito de concluir que os pais, alunos e educadores escutaram a
voz de Paulo, a validando e praticando. Portanto, a sociedade
brasileira está no caminho certo para a construção da autêntica
democracia. Querendo diminuí-lo e ofendê-lo, contraditoriamente a
revista Veja nos dá o direito de proclamar que Paulo Freire Vive!

São Paulo, 11 de setembro de 2008
Ana Maria Araújo Freire".

Sexta-feira 13. Dia de assombração?

por2415_GilSextaFeiraTreze_gde.jpg Antonio Gil Neto

Que dia é hoje? Está mais para dia de sorte ou de azar?

Olho para fora. Calor dos mais fortes, abafado e sem presságios de chuva. Examino o calendário.Abro um pouco mais a boca de ligeiro susto e constato que este ano está bem armado de sextas-feiras 13: tivemos uma em fevereiro, temos outra agora neste março e teremos ainda outra em novembro. Maus agouros à vista. A bruxa andará bem solta... Será sinal de tempo ruim, enchentes, catástrofes? Ou será prenúncio de agravamento da crise mundial que nos assombra e nos afeta quando vamos utilizar o nosso precioso dinheirinho?

Com três sextas-feiras 13 cravadas nesse ano podemos dizer que não teremos bom ano? Ou isto é tudo é grande lorota?

Neste recolhimento reflexivo sobre este marcador sinistro dos tempos, enquanto olho através da janela a tarde esvaindo-se em pouco vento, revivo alguns rituais, atos quase imperceptíveis, que fazem parte da minha vida comum, jeitos de encará-la ou bem vivê-la. Gato preto cruzando no meu caminho: desvio ou continuo com aquela pulga atrás da orelha, atento ao que possa vir. Deixar guarda-chuva aberto dentro de casa? Nem pensar, isso pode chamar algo indesejável. Não me lembro de ter acontecido algo prejudicial por conta de tê-lo esquecido aberto no espaço do “lar doce lar”, mas o fato é que sempre cuidei para não abri-lo. Com espelho, tomo o maior cuidado para não quebrá-lo. Nas mudanças, cuido bem dele, levo-o ao colo como preciosidade. Fico cutucando em mim como seriam sete anos de azar...

Sobre essa história do gato preto, sei que na Índia, já é uma outra história. Lá seria sinal de sorte. Se fosse um gato branco é que seria de azar. Os sentidos para um mesmo fato variam entre diferentes culturas, mas o papel da superstição tem importância em todas elas.

Enquanto a chuva não vem e o calor vai aumentando, olho melhor para a palavra “superstição”, do latim supertitio, que significa o excesso ou o que sobrevive de épocas passadas. No Aurélio, dentre outros sentidos, trata-se de um sentimento religioso baseado no temor ou na ignorância e que induz ao conhecimento humano de falsos deveres, ao receio de coisas fantásticas e à confiança em coisas ineficazes.Viu só?

Todos nós estamos cercados de atitudes supersticiosas. É comum pessoas consultarem, sem compromisso e apenas por curiosidade, o horóscopo do jornal, não é? Fora consultas esporádicas ao tarô, ao I Ching ou a uma infalível cartomante que alguém bem conhece! Me lembrei especialmente da Cris , amiga jornalista, antenadíssima que usa a internet no celular para checar horários de vôos, a previsão do tempo e, é claro , o horóscopo! Ela adora estar plugada e adora igualmente o horóscopo chinês!

Estes pequenos e pungentes rituais nos dão sinais da existência de um inconsciente coletivo, valoroso e firme, guardião do mistério que envolve toda a humanidade acerca de sua origem e seu destino. Até onde pode ir o conhecimento humano? Há no espaço do pensar, sobretudo o científico, algo que escapa para ser desvendado. É o mistério que incentiva e estimula o homem a vislumbrar, descobrir, criar.

Desde os tempos do homem das cavernas ainda repetimos atos espontâneos e quase marotos para decifrar o desconhecido e desvelar o futuro comum, indecifrável e o inesperado. Quem é que nunca entrou na sua nova casa com o pé direito ou não bateu na madeira para isolar o azar? Muitas supertições fazem parte do dia a dia das pessoas. É algo que permanece no gerar das gerações. Que faz parte do viver cotidiano como uma das formas de melhor viver e resolver dificuldades.

Estamos todos situados num parêntese temporal, entre o nascimento e a morte e circunscritos ao mesmo destino, desconhecido e pleno de conjecturas. O que nos coloca num lugar de não-saber que fortalece o medo, mas estimula a imaginação.

Andei coletando por aí alguns desses ditos pequenos rituais: borboleta preta, sinal de morte; colher e garfo caindo, mulher e homem chegando em casa; usar roupa do avesso, chama dinheiro; sentir a orelha quente, alguém falando mal ou bem de você; colocar vassoura virada atrás da porta, a visita irá embora; passar embaixo da escada, traz azar; dormir com os pés para a porta, chama a morte; bater na madeira três vezes, afasta o azar; sentir arrepio, é sinal de que a morte passou por perto; gato preto, dá azar;ferradura presa na porta, sinal de boa sorte; se uma pessoa espirra, desejamos saúde (o espirro é uma idéia antiga de que o espírito mora na cabeça e pode ir embora com o espirro); sal grosso, evita azar, inveja, mau olhado; bolsa no chão , pode diminuir o dinheiro; mão coçando , dinheiro chegando ; se houver um objeto perdido, dar 3 pulinhos para São Longuinho...

Li num almanaque que estas são práticas presentes desde as mais antigas religiões. E você terá outras para enriquecer esta lista aleatória. Com certeza.

Desde pequenos sofremos e nos encantamos com o trovão, o relâmpago, o escuro dentre tantos outros acontecimentos triviais. O mesmo se faz com as histórias tenebrosas de terror. Repare como crianças e adolescentes quase sempre apreciam história de vampiros, assombrações, bruxas e outros personagens sinistros e que moram no além fantasioso. Presumo, nesse meio fantasmagórico que a figura da Morte, além de ser assustadora apresenta algo de curioso e provocador em nossa realidade medrosa e apavorante. Por estes dias comecei a ler um livro que havia escolhido pelo título: A menina que roubava livros. Li algumas páginas e o abandonei. Ao me dar conta de que o narrador do romance era a Morte minha leitura mudou de rumo. Retomei o livro com outro movimento. Não é uma Morte com capa negra, rosto de caveira e foice ensanguentada na mão, bem sexta-feira 13. Ao contrário, é uma figura quase humana que conta sobre o seu trabalho de cuidar do ser humano lá do outro lado do desconhecido. Você não acha isso interessante?

Cá entre nós, por que a sexta-feira e o numeral 13 se configuram em tamanha idéia de infortúnio e dia de assombração aparecer? No guia dos curiosos achei uma boa explicação, embora saiba que há outras bem mais antigas: é sexta-feira, porque foi o dia da crucificação e morte de Jesus Cristo. E é 13, pelo fato de na última ceia estarem 13 pessoas à mesa: Jesus e os 12 apóstolos. Mas, muitas vezes o número 13 é entendido como algo bom, de sorte. Na Índia, na China e no México, por exemplo, é um número religioso muito apreciado.

Acho que as supertições perduram pelo menos em boa parte por satisfazer as nossas necessidades emocionais. Fico pensando que muito do medo e ansiedade, peculiares dos seres humanos são provocados pelo fato de toda a gente morrer. E mais, por poder ser inesperada. Nesse sentido os rituais supersticiosos podem funcionar como algo razoável na obtenção imediata de algo que nos conforte ou nos console.

Há quem diga que um povo cultuador da superstição pode ser facilmente manipulado pelos seus líderes. Será isso o que nos estarrece?

Lá fora, calor e escuridão. Os fantasmas rondam. Enquanto não chega a próxima sexta-feira 13, talvez seja bom consultarmos a nós mesmos para saber até que ponto os assombramentos reavivam o nosso lado lúdico e inventivo e até que ponto ele nos paralisa, nos emburrece. Ainda vale repensar on-line a velha máxima de Hamlet, retomada pela ironia de Machado no seu conto A Cartomante: “há mais coisas entre o céu e a terra do que supõe nossa vã filosofia”.