domingo, 15 de março de 2009

LIMA BARRETO

Não as matem

Lima Barreto

Esse rapaz que, em Deodoro, quis matar a ex-noiva e suicidou-se em seguida, é um sintoma da revivescência de um sentimento que parecia ter morrido no coração dos homens: o domínio, quand même, sobre a mulher.

O caso não é único. Não há muito tempo, em dias de carnaval, um rapaz atirou sobre a ex-noiva, lá pelas bandas do Estácio, matando-se em seguida. A moça com a bala na espinha veio a morrer, dias após, entre sofrimentos atrozes.

Um outro, também, pelo carnaval, ali pelas bandas do ex-futuro Hotel Monumental, que substituiu com montões de pedras o vetusto Convento da Ajuda, alvejou a sua ex-noiva e matou-a.

Todos esses senhores parece que não sabem o que é a vontade dos outros.

Eles se julgam com o direito de impor o seu amor ou o seu desejo a quem não os quer Não sei se se julgam muito diferentes dos ladrões à mão armada; mas o certo é que estes não nos arrebatam senão o dinheiro, enquanto esses tais noivos assassinos querem tudo que é de mais sagrado em outro ente, de pistola na mão. O ladrão ainda nos deixa com vida, se lhe passamos o dinheiro; os tais passionais, porém, nem estabelecem a alternativa: a bolsa ou a vida. Eles, não; matam logo.

Nós já tínhamos os maridos que matavam as esposas adúlteras; agora temos os noivos que matam as ex-noivas

De resto, semelhantes cidadãos são idiotas. É de supor que, quem quer casar, deseje que a sua futura mulher venha para o tálamo conjugal com a máxima liberdade, com a melhor boa vontade, sem coação de espécie alguma, com ardor até, com ânsia e grandes desejos; como e então que se castigam as moças que confessam não sentir mais pelos namorados amor ou coisa equivalente?

Todas as considerações que se possam fazer, tendentes a convencer os homens de que eles não têm sobre as mulheres domínio outro que não aquele que venha da afeição, não devem ser desprezadas.

Esse obsoleto domínio à valentona, do homem sobre a mulher, é coisa tão horrorosa, que enche de indignação. O esquecimento de que elas são, como todos nós, sujeitas, a influências várias que fazem flutuar as suas inclinações, as suas amizades, os seus gostos, os seus amores, é coisa tão estúpida, que, só entre selvagens deve ter existido Todos os experimentadores e observadores dos fatos morais têm mostrado a inanidade de generalizar a eternidade do amor Pode existir, existe, mas, excepcionalmente; e exigi-la nas leis ou a cano de revólver, é um absurdo tão grande como querer impedir que o sol varie a hora do seu nascimento.

Deixem as mulheres amar à vontade.

Não as matem, pelo amor de Deus!

Vida urbana, 27-l-1915

terça-feira, 10 de março de 2009

Cordel dos Excomungados

Cordel dos Excomungados



Miguezim de Princesa - Poeta popular,

paraibano radicado em Brasília.



I

Peço à musa do improviso

Que me dê inspiração,

Ciência e sabedoria,

Inteligência e razão,

Peço que Deus que me proteja

Para falar de uma igreja

Que comete aberração.

II

Pelas fogueiras que arderam

No tempo da Inquisição,

Pelas mulheres queimadas

Sem apelo ou compaixão,

Pensava que o Vaticano

Tinha mudado de plano,

Abolido a excomunhão.

III

Mas o bispo Dom José,

Um homem conservador,

Tratou com impiedade

A vítima de um estuprador,

Massacrada e abusada,

Sofrida e violentada,

Sem futuro e sem amor.

IV

Depois que houve o estupro,

A menina engravidou.

Ela só tem nove anos,

A Justiça autorizou

Que a criança abortasse

Antes que a vida brotasse

Um fruto do desamor.

V

O aborto, já previsto

Na nossa legislação,

Teve o apoio declarado

Do ministro Temporão,

Que é médico bom e zeloso,

E mostrou ser corajoso

Ao enfrentar a questão.

VI

Além de excomungar

O ministro Temporão,

Dom José excomungou

Da menina, sem razão,

A mãe, a vó e a tia

E se brincar puniria

Até a quarta geração.

VII

É esquisito que a igreja,

Que tanto prega o perdão,

Resolva excomungar médicos

Que cumpriram sua missão

E num beco sem saída

Livraram uma pobre vida

Do fel da desilusão.

VIII

Mas o mundo está virado

E cheio de desatinos:

Missa virou presepada,

Tem dança até do pepino,

Padre que usa bermuda,

Deixando mulher buchuda

E bolindo com os meninos.

IX

Milhões morrendo de Aids:

É grande a devastação,

Mas a igreja acha bom

Furunfar sem proteção

E o padre prega na missa

Que camisinha na lingüiça

É uma coisa do Cão.

X

E esta quem me contou

Foi Lima do Camarão:

Dom José excomungou

A equipe de plantão,

A família da menina

E o ministro Temporão,

Mas para o estuprador,

Que por certo perdoou,

O arcebispo reservou

A vaga de sacristão.

domingo, 8 de março de 2009

Menina de 9 anos aborta! Excomunhão é justa?

Excomunhão é um alerta para a sociedade brasileira


A indignação da sociedade brasileira frente à recente excomunhão perpetrada pelo Arcebispo de Recife foi plasmada na fala do Presidente da República sobre o episódio. Lula afirmou que os médicos fizeram o que tinham que fazer, salvando a vida de uma menina de 09 anos, ressaltando que a Medicina tem mais razão que a Igreja.


Merece atenção a resposta do Arcebispo, quando afirma que a lei de Deus está acima de qualquer lei humana. Numa democracia a lei de Deus não pode estar acima da lei dos homens, pois é dever do Estado garantir a igual liberdade religiosa de todos os cidadãos, respeitadas a diversidade de crenças e visões de mundo, inclusive daqueles que não crêem.



A excomunhão, portanto, serve de alerta para a sociedade brasileira. Se hoje os cidadãos não precisam temer represálias religiosas quando exercem seus direitos, é porque em 1890 foi decretada a separação Estado-igrejas, garantindo-se a inviolabilidade de consciência e de crença. Antes disso, a pena de excomunhão surtia efeitos no mundo jurídico, podendo vitimar os cidadãos com a chancela do Estado-juiz.



Naquele largo período da história brasileira, fundamentalistas religiosos, como o Arcebispo de Recife, tinham muito poder, pois pecar era ilegal.



Está nas mãos do Congresso Nacional preservar a separação Estado-igrejas, rejeitando a Concordata assinada por Lula e Ratzinger em 2008, a qual viola o artigo 19, I, da Constituição Federal, estabelecendo uma aliança com a Igreja Católica, colocando-a acima das demais religiões professadas no Brasil, em detrimento das liberdades individuais





Roberto Arriada Lorea

Juiz de Direito em Porto Alegre

Membro do Conselho Diretor da CCR

Visita importante

Queridos segue link que recebi de Neigila pra gente dar uma olhada.
Tem textos de diversos escritores, inclusive "livros falados".
Bj no coração
Alex


http://www.bibvirt.futuro.usp.br/textos/literatura/por_genero

Mais uma vez _ Pérolas _ de RUAN FONTANA

Escravos do tempo

By Ruan Fontana

Sabe aqueles dias que você acorda e não tem nada pra fazer, vai ao banheiro, toma um bom banho, escova os dentes, se veste, senta em frente ao computador e se pergunta: O que eu vou fazer hoje? Isso está acontecendo comigo neste exato momento, não tenho a menor idéia do que fazer neste domingo de Sol. Tenho um longo dia pela frente, afinal não passam das nove da manhã... Longo dia... Me fez lembrar de uma regra natural inexplicável, todos nós presenciamos, mas ninguém sabe explicar. Faz parte daquelas inúmeras perguntas sobre a humanidade que a ciência ainda não conseguiu achar uma resposta... Por que quando não temos nada pra fazer o tempo não passa? E quando estamos atarefados o tempo corre velozmente? Talvez com a intenção cruel de fazer com que nós não consigamos cumprir o que temos que cumprir.

O tempo não para, já dizia o saudoso Cazuza. Todo mundo já ouviu que tudo que é bom, dura pouco... Mas também já ouvimos que o que é bom, dura o tempo necessário para ser inesquecível... Acho tudo isso um consolo para o inexplicável. Uma resposta que inventaram para a não resposta. Quero saber quem foi o infeliz que inventou o relógio, as horas, os minutos, os segundos? Quem foi o inútil que nos prendeu na maior e mais perigosa das prisões, o tempo. Viramos escravos e a cada ano que passa estamos mais aprisionados e envolvidos com ele. Já vivemos em relação a ele, criamos, inovamos, evoluímos, tudo em função dele.

Devemos poupar o tempo, então compre um celular novo, mais moderno, tenho certeza que você vai ganhar alguns minutos. Compre um carro novo, mais veloz, cuidado com o transito, afinal todos que correm nas estradas, estão tendo o mesmo pensamento que você: Tenho que ganhar tempo, tenho que chegar mais rápido. Lembre-se de comprar um carro flexível, que funcione com biodiesel, polua menos, já que quanto mais degradarmos o nosso planeta, menos tempo teremos para aproveitá-lo.

A necessidade de ganhar tempo acabou transformando as nossas gerações, em gerações doentes. Por culpa dos milhares de invenções malucas para poupar tempo, estamos cada vez mais expostos a radiação. Tudo a nossa volta está carregado de radiação, TV, celular, computador, microondas, equipamentos de áudio, eu, você. Nós somos uma bomba radioativa viva, prontos para explodir. Estamos apodrecendo aos poucos, quase imperceptível, mas estamos.

Sem contar que estamos acelerados, estressados. Não expressamos mais nossos sentimentos como deveríamos. Pela correria, deixamos de ver amigos, deixamos de ter contato, namoramos por MSN, terminamos por telefone, afinal tenho uma reunião agora, não posso me atrasar. Atraso... O atraso, conseqüência da falta de tempo, já foi capaz de destruir muitas coisas, o mais afetado pelo atraso é o amor. Quantos relacionamentos já acabaram por que alguém atrasou? Imagina você se atrasar para o seu casamento, para as mulheres isso é uma regra, mas para os homens? Se atrase pra ver o que acontece. Fim de casamento, antes mesmo de começar.

O tempo nos faz amadurecer a força, nos separa de pessoas extremamente importantes. O tempo mata, mas também traz a vida. O tempo voa, o tempo anda, o tempo pára. E quando parar pode ser tarde, faça tudo que tenha que fazer agora, não deixe pra amanhã o que pode ser feito hoje, o tempo pode parar pra você a qualquer instante. Talvez eu nem consiga terminar esse texto, por isso antes que não dê tempo, vou encerrar por aqui. Meu amigo acabou de me ligar chamando para ir a um churrasco e já está chegando aqui, tenho que me arrumar correndo, afinal o tempo não para. Bom dia... Carpe diem.

quarta-feira, 4 de março de 2009

Professores, professoras

Professoras, professores,
por Ana Miranda

Graças a vocês, perdi o medo de um papel branco, quando tinha de fazer redações. Perdi o medo dos livros, quando era levada a ler os clássicos

Tenho muitos assuntos a conversar. Precisaria primeiro agradecer o que fizeram por mim, ainda hoje vocês estão dentro de minha cabeça, soprando palavras, gestos, soluções, como uma espécie de consciência adquirida. Tudo o que aprendi na escola pesa hoje em cada decisão que preciso tomar e, se tenho alguma organização mental, uma localização intelectual diante da sociedade, isso se deve aos esforços da educação escolar.

Depois, queria pedir desculpas pelo meu comportamento rebelde na adolescência, mas vocês eram a autoridade que eu tinha de enfrentar, eu precisava lutar pela minha liberdade, esse era meu temperamento, também precisava me localizar diante dos colegas e vocês eram um ótimo pretexto para eu mostrar que tinha solidariedade, coragem e ousadia.

Lamento hoje a minha teima em só fazer o que se aproximava da minha aptidão, que sempre foi a palavra, e nunca descobri os encantos da matemática, da álgebra, da física... Jamais esquecerei o professor que aceitou a minha resposta a um teorema, que escrevi em forma de poema. Ou o professor que me curou com elogios, ele depositava em mim tamanha confiança que eu não podia deixar de corresponder a suas expectativas. Ou o professor que me sugeria leituras e, graças a ele, eu sabia retirar na biblioteca da escola livros de alta literatura, como poemas de Maiakovski, textos coloniais de Hans Staden ou Jean de Léry, ou o livro de memórias e antropologia de Lévy Strauss, Tristes Trópicos. E tantas outras descobertas fascinantes.

Graças a vocês, perdi o medo de um papel branco, quando estudava na escola e tinha de fazer redações todos os dias. Perdi o medo dos livros quando era levada a ler os clássicos de nosso tesouro literário. Foi uma porta aberta, e aquela que escolhi para minha profissão. Nas aulas de Literatura, encantei-me com Gregório de Matos ou Manuel Bandeira. Lembro-me que decorei o poema O Menino Carvoeiro. Acho que nosso professor de Literatura tinha algo de especial, pois dois de seus alunos são, hoje, escritores dos mais atuantes na literatura brasileira: eu e Miltom Hatoum.

Hoje, acompanho a educação dos meus netinhos, Raphael, de 9 anos, e Gabriel, de 6. A cada dilema educacional dessas crianças, penso em como vocês são admiráveis. Acho a educação nos dias de hoje tão mais difícil... Tudo é tão mais complexo... As habilidades são muito mais exigidas, há uma variedade humana bem maior nas salas de aula, e as individualidades precisam ser mais respeitadas. O campo de conhecimentos é imensamente mais amplo. No meu tempo, levávamos lanche para a escola, na merendeira, e era uma fruta, um suco, um pão com queijo... Hoje os alimentos são variados e a maioria é uma tentação que faz mal à saúde, só isso já significa um trabalho imenso de educação alimentar. Há a educação curricular, a educação para a cidadania, a física, a emocional...Mas vocês dão conta de tudo isso, e nem sempre com as melhores condições. Reconhecemos e agradecemos. Abraços, felicidades, da Ana Miranda.

Disponível em: http://www.cartanaescola.com.br/edicoes/33/professoras-professores

BEM-VINDOS

Queridas e queridos

Começamos o ano de 2009 com as atividades de Língua Portuguesa e Literatura. Espero que você esteja feliz com a escolha da escola em que vai estudar e interessado em aprender e dividir conhecimento. Quero que fique bem claro que estou à sua disposição. Quero ser parceiro. Seu amigo. Juntos poderemos produzir muita coisa boa esse ano. Conte comigo porque estarei acreditando em você.

No mais, vamos produzir leituras, escritas e vamos trabalhar com diversas formas de linguagens. Boa sorte a todos e todas. Bem-vindos.