domingo, 8 de março de 2009

Menina de 9 anos aborta! Excomunhão é justa?

Excomunhão é um alerta para a sociedade brasileira


A indignação da sociedade brasileira frente à recente excomunhão perpetrada pelo Arcebispo de Recife foi plasmada na fala do Presidente da República sobre o episódio. Lula afirmou que os médicos fizeram o que tinham que fazer, salvando a vida de uma menina de 09 anos, ressaltando que a Medicina tem mais razão que a Igreja.


Merece atenção a resposta do Arcebispo, quando afirma que a lei de Deus está acima de qualquer lei humana. Numa democracia a lei de Deus não pode estar acima da lei dos homens, pois é dever do Estado garantir a igual liberdade religiosa de todos os cidadãos, respeitadas a diversidade de crenças e visões de mundo, inclusive daqueles que não crêem.



A excomunhão, portanto, serve de alerta para a sociedade brasileira. Se hoje os cidadãos não precisam temer represálias religiosas quando exercem seus direitos, é porque em 1890 foi decretada a separação Estado-igrejas, garantindo-se a inviolabilidade de consciência e de crença. Antes disso, a pena de excomunhão surtia efeitos no mundo jurídico, podendo vitimar os cidadãos com a chancela do Estado-juiz.



Naquele largo período da história brasileira, fundamentalistas religiosos, como o Arcebispo de Recife, tinham muito poder, pois pecar era ilegal.



Está nas mãos do Congresso Nacional preservar a separação Estado-igrejas, rejeitando a Concordata assinada por Lula e Ratzinger em 2008, a qual viola o artigo 19, I, da Constituição Federal, estabelecendo uma aliança com a Igreja Católica, colocando-a acima das demais religiões professadas no Brasil, em detrimento das liberdades individuais





Roberto Arriada Lorea

Juiz de Direito em Porto Alegre

Membro do Conselho Diretor da CCR

Visita importante

Queridos segue link que recebi de Neigila pra gente dar uma olhada.
Tem textos de diversos escritores, inclusive "livros falados".
Bj no coração
Alex


http://www.bibvirt.futuro.usp.br/textos/literatura/por_genero

Mais uma vez _ Pérolas _ de RUAN FONTANA

Escravos do tempo

By Ruan Fontana

Sabe aqueles dias que você acorda e não tem nada pra fazer, vai ao banheiro, toma um bom banho, escova os dentes, se veste, senta em frente ao computador e se pergunta: O que eu vou fazer hoje? Isso está acontecendo comigo neste exato momento, não tenho a menor idéia do que fazer neste domingo de Sol. Tenho um longo dia pela frente, afinal não passam das nove da manhã... Longo dia... Me fez lembrar de uma regra natural inexplicável, todos nós presenciamos, mas ninguém sabe explicar. Faz parte daquelas inúmeras perguntas sobre a humanidade que a ciência ainda não conseguiu achar uma resposta... Por que quando não temos nada pra fazer o tempo não passa? E quando estamos atarefados o tempo corre velozmente? Talvez com a intenção cruel de fazer com que nós não consigamos cumprir o que temos que cumprir.

O tempo não para, já dizia o saudoso Cazuza. Todo mundo já ouviu que tudo que é bom, dura pouco... Mas também já ouvimos que o que é bom, dura o tempo necessário para ser inesquecível... Acho tudo isso um consolo para o inexplicável. Uma resposta que inventaram para a não resposta. Quero saber quem foi o infeliz que inventou o relógio, as horas, os minutos, os segundos? Quem foi o inútil que nos prendeu na maior e mais perigosa das prisões, o tempo. Viramos escravos e a cada ano que passa estamos mais aprisionados e envolvidos com ele. Já vivemos em relação a ele, criamos, inovamos, evoluímos, tudo em função dele.

Devemos poupar o tempo, então compre um celular novo, mais moderno, tenho certeza que você vai ganhar alguns minutos. Compre um carro novo, mais veloz, cuidado com o transito, afinal todos que correm nas estradas, estão tendo o mesmo pensamento que você: Tenho que ganhar tempo, tenho que chegar mais rápido. Lembre-se de comprar um carro flexível, que funcione com biodiesel, polua menos, já que quanto mais degradarmos o nosso planeta, menos tempo teremos para aproveitá-lo.

A necessidade de ganhar tempo acabou transformando as nossas gerações, em gerações doentes. Por culpa dos milhares de invenções malucas para poupar tempo, estamos cada vez mais expostos a radiação. Tudo a nossa volta está carregado de radiação, TV, celular, computador, microondas, equipamentos de áudio, eu, você. Nós somos uma bomba radioativa viva, prontos para explodir. Estamos apodrecendo aos poucos, quase imperceptível, mas estamos.

Sem contar que estamos acelerados, estressados. Não expressamos mais nossos sentimentos como deveríamos. Pela correria, deixamos de ver amigos, deixamos de ter contato, namoramos por MSN, terminamos por telefone, afinal tenho uma reunião agora, não posso me atrasar. Atraso... O atraso, conseqüência da falta de tempo, já foi capaz de destruir muitas coisas, o mais afetado pelo atraso é o amor. Quantos relacionamentos já acabaram por que alguém atrasou? Imagina você se atrasar para o seu casamento, para as mulheres isso é uma regra, mas para os homens? Se atrase pra ver o que acontece. Fim de casamento, antes mesmo de começar.

O tempo nos faz amadurecer a força, nos separa de pessoas extremamente importantes. O tempo mata, mas também traz a vida. O tempo voa, o tempo anda, o tempo pára. E quando parar pode ser tarde, faça tudo que tenha que fazer agora, não deixe pra amanhã o que pode ser feito hoje, o tempo pode parar pra você a qualquer instante. Talvez eu nem consiga terminar esse texto, por isso antes que não dê tempo, vou encerrar por aqui. Meu amigo acabou de me ligar chamando para ir a um churrasco e já está chegando aqui, tenho que me arrumar correndo, afinal o tempo não para. Bom dia... Carpe diem.

quarta-feira, 4 de março de 2009

Professores, professoras

Professoras, professores,
por Ana Miranda

Graças a vocês, perdi o medo de um papel branco, quando tinha de fazer redações. Perdi o medo dos livros, quando era levada a ler os clássicos

Tenho muitos assuntos a conversar. Precisaria primeiro agradecer o que fizeram por mim, ainda hoje vocês estão dentro de minha cabeça, soprando palavras, gestos, soluções, como uma espécie de consciência adquirida. Tudo o que aprendi na escola pesa hoje em cada decisão que preciso tomar e, se tenho alguma organização mental, uma localização intelectual diante da sociedade, isso se deve aos esforços da educação escolar.

Depois, queria pedir desculpas pelo meu comportamento rebelde na adolescência, mas vocês eram a autoridade que eu tinha de enfrentar, eu precisava lutar pela minha liberdade, esse era meu temperamento, também precisava me localizar diante dos colegas e vocês eram um ótimo pretexto para eu mostrar que tinha solidariedade, coragem e ousadia.

Lamento hoje a minha teima em só fazer o que se aproximava da minha aptidão, que sempre foi a palavra, e nunca descobri os encantos da matemática, da álgebra, da física... Jamais esquecerei o professor que aceitou a minha resposta a um teorema, que escrevi em forma de poema. Ou o professor que me curou com elogios, ele depositava em mim tamanha confiança que eu não podia deixar de corresponder a suas expectativas. Ou o professor que me sugeria leituras e, graças a ele, eu sabia retirar na biblioteca da escola livros de alta literatura, como poemas de Maiakovski, textos coloniais de Hans Staden ou Jean de Léry, ou o livro de memórias e antropologia de Lévy Strauss, Tristes Trópicos. E tantas outras descobertas fascinantes.

Graças a vocês, perdi o medo de um papel branco, quando estudava na escola e tinha de fazer redações todos os dias. Perdi o medo dos livros quando era levada a ler os clássicos de nosso tesouro literário. Foi uma porta aberta, e aquela que escolhi para minha profissão. Nas aulas de Literatura, encantei-me com Gregório de Matos ou Manuel Bandeira. Lembro-me que decorei o poema O Menino Carvoeiro. Acho que nosso professor de Literatura tinha algo de especial, pois dois de seus alunos são, hoje, escritores dos mais atuantes na literatura brasileira: eu e Miltom Hatoum.

Hoje, acompanho a educação dos meus netinhos, Raphael, de 9 anos, e Gabriel, de 6. A cada dilema educacional dessas crianças, penso em como vocês são admiráveis. Acho a educação nos dias de hoje tão mais difícil... Tudo é tão mais complexo... As habilidades são muito mais exigidas, há uma variedade humana bem maior nas salas de aula, e as individualidades precisam ser mais respeitadas. O campo de conhecimentos é imensamente mais amplo. No meu tempo, levávamos lanche para a escola, na merendeira, e era uma fruta, um suco, um pão com queijo... Hoje os alimentos são variados e a maioria é uma tentação que faz mal à saúde, só isso já significa um trabalho imenso de educação alimentar. Há a educação curricular, a educação para a cidadania, a física, a emocional...Mas vocês dão conta de tudo isso, e nem sempre com as melhores condições. Reconhecemos e agradecemos. Abraços, felicidades, da Ana Miranda.

Disponível em: http://www.cartanaescola.com.br/edicoes/33/professoras-professores

BEM-VINDOS

Queridas e queridos

Começamos o ano de 2009 com as atividades de Língua Portuguesa e Literatura. Espero que você esteja feliz com a escolha da escola em que vai estudar e interessado em aprender e dividir conhecimento. Quero que fique bem claro que estou à sua disposição. Quero ser parceiro. Seu amigo. Juntos poderemos produzir muita coisa boa esse ano. Conte comigo porque estarei acreditando em você.

No mais, vamos produzir leituras, escritas e vamos trabalhar com diversas formas de linguagens. Boa sorte a todos e todas. Bem-vindos.

sábado, 27 de dezembro de 2008

Michel Foucault _ Vigiar e punir _ Falando de Escola _ Leiam... Vale muito a pena

Pouco a pouco - mas principalmente depois de 1762 - o espaço escolar se desdobra; a classe torna-se homogênea, ela agora só se compõe de elementos individuais que vêm se colocar uns ao lado dos outros sob os olhares do mestre. A ordenação por fileiras, no século XVIII, começa a definir a grande forma de repartição dos indivíduos na ordem escolar: filas de alunos na sala, nos corredores, nos pátios; colocação atribuída a cada um em relação a cada tarefa e cada prova; colocação que ele obtém de semana em semana, de mês em mês, de ano em ano; alinhamento das classes de idade umas depois das outras; sucessão dos assuntos ensinados, das questões tratadas segundo uma ordem de dificuldade crescente. E nesse conjunto de alinhamentos obrigatórios, cada aluno segundo sua idade, seus desempenhos, seu comportamento, ocupa ora uma fila, ora outra; ele se desloca o tempo todo numa série de casas; umas ideais, que marcam uma hierarquia do saber ou das capacidades, outras devendo traduzir materialmente no espaço da classe ou do colégio essa repartição de valores ou dos méritos. Movimento perpétuo onde os indivíduos substituem uns aos outros, num espaço escondido por intervalos alinhados. A organização de um espaço serial foi uma das grandes modificações técnicas do ensino elementar. Permitiu ultrapassar o sistema tradicional (um aluno que trabalha alguns minutos com o professor, enquanto fica ocioso e sem vigilância o grupo confuso dos que estão esperando). Determinando lugares individuais tornou possível o controle de cada um e o trabalho simultâneo de todos. Organizou uma nova economia do tempo de aprendizagem. Fez funcionar o espaço escolar como uma máquina de ensinar, mas também de vigiar, de hierarquizar, de recompensar. J.-B. de La Salle imaginava uma classe onde a distribuição espacial pudesse realizar ao mesmo tempo toda uma série de distinções: segundo o nível de avanço dos alunos, segundo o valor de cada um, segundo seu temperamento melhor ou pior, segundo sua maior ou menor aplicação, segundo sua limpeza, e segundo a fortuna dos pais. Então, a sala de aula formaria um grande quadro único, com entradas múltiplas, sob o olhar cuidadosamente "classificador" do professor: Haverá em todas as salas de aula lugares determinados para todos os escolares de todas as classes, de maneira que todos os da mesma classe sejam colocados num mesmo lugar e sempre fixo. Os escolares das lições mais adiantadas serão colocados nos bancos mais próximos da parede e em seguida os outros segundo a ordem das lições avançando para o meio da sala... Cada um dos alunos terá seu lugar marcado e nenhum o deixará nem trocará sem a ordem e o consentimento do inspetor das escolas. [Será preciso fazer com que] aqueles cujos pais são negligentes e têm piolhos fiquem separados dos que são limpos e não os têm; que um escolar leviano e distraído seja colocado entre dois bem comportados e ajuizados, que o libertino ou fique sozinho ou entre dois piedosos.(18) As disciplinas, organizando as "celas", os "lugares" e as "fileiras" criam espaços complexos: ao mesmo tempo arquiteturais, funcionais e hierárquicos. São espaços que realizam a fixação e permitem a circulação; recortam segmentos individuais e estabelecem ligações operatórias; marcam lugares e indicam valores; garantem a obediência dos indivíduos, mas também uma melhor economia do tempo e dos gestos. São espaços mistos: reais pois que regem a disposição de edifícios, de salas, de móveis, mas ideais, pois projetam-se sobre essa organização caracterizações, estimativas, hierarquias. A primeira das grandes operações da disciplina é então a constituição de "quadros vivos" que transformam as multidões confusas, inúteis ou perigosas em multiplicidades organizadas. A constituição de "quadros" foi um dos grandes problemas da tecnologia científica, política e econômica do século XVIII; arramar jardins de plantas e de animais, e construir ao mesmo tempo classificações racionais dos seres vivos; observar, controlar, regularizar a circulação das mercadorias e da moeda e estabelecer assim um quadro econômico que possa valer como princípio de enriquecimento; inspecionar os homens, constatar sua presença e sua ausência, e constituir um registro geral e permanente das forças armadas; repartir os doentes, dividir com cuidado e espaço hospitalar e fazer uma classificação sistemática das doenças: outras tantas operações conjuntas em que os dois constituintes - distribuição e análise, controle e inteligibilidade - são solidários. O quadro, no século XVIII, é ao mesmo tempo uma técnica de poder e um processo de saber. Trata-se de organizar o múltiplo, de se obter um instrumento para percorrê-lo e dominá-lo; trata-se de lhe impor uma "ordem".

sábado, 6 de dezembro de 2008

Cristovam Buarque!!! Ler atentamente

Não faz muito tempo, o Brasil era um país dividido pelo debate entre idéias: economia aberta ou fechada; privatização ou estatização; democracia ou autoritarismo; socialismo ou capitalismo. Hoje, o debate ideológico se limita a cotas e bolsas. De um lado, os que negam aos pobres e negros o apoio de bolsas e cotas; de outro, aqueles que consideram bolsas e cotas suficientes para resolver o problema da pobreza e do preconceito. Parte da população é contra a distribuição de bolsas para pobres; parte considera que a distribuição de bolsas é suficiente para credenciar um governo. O mesmo acontece com as cotas. Parte é contra usálas como instrumento para formar uma elite universitária negra; outra parte comemora a existência das cotas como se fosse a solução para todos os problemas que pesam sobre os negros brasileiros.

Há uma razão que unifica os dois lados do nosso pobre debate: o desprezo aos pobres e excluídos, que caracteriza os formadores de opinião no Brasil. Tanto os que defendem quanto os que criticam bolsas e cotas.

Aqueles que hoje são contra as bolsas, há séculos são insensíveis à tragédia de um país que condena dezenas de milhões de pessoas à fome e à miséria. Não defenderam no passado a revolução que era necessária para que as bolsas fossem hoje desnecessárias. E os que comemoram as bolsas como o grande mérito de um governo são insensíveis à tragédia de um país que condena parte considerável de suas famílias à necessidade de ajuda. Contentamse com as bolsas, sem defender a revolução que permitirá abolir a necessidade delas.

No caso das cotas é ainda mais grave.

Os que são contra nunca se sensibilizaram com a exclusão de negros em nossa elite, e temem que vagas da universidade sejam ocupadas por jovens negros com alguns décimos a menos nas notas do vestibular. Os que são a favor de cotas lutam pela reserva de vagas, mas não para que todos terminem o ensino médio em escolas de qualidade; reservam lugares na universidade, mas mantêm a falta de concorrência por causa das multidões excluídas pelo analfabetismo e pela evasão escolar.

Lutamos para manter privilégios ou incorporar os privilegiados, não para eliminar os privilégios. A crítica ética às bolsas e cotas está na defesa da igualdade educacional: em vez de impedi-las, torná-las desnecessárias.

A seleção de futebol não precisa de cotas, porque a bola é redonda para todos; chegam lá os mais talentosos e persistentes. Só uma escola "redonda" para todos permitiria abolir a necessidade de cotas e de bolsas. Isso exige uma revolução na educação de base. Mas os defensores e opositores de bolsas e cotas desprezam o radicalismo da solução definitiva: a igualdade de oportunidades para abolir todos os privilégios. Que acabaria com a disputa atual de quem tenta restringir os privilégios ou fazer ter acesso a eles.

Em um país com ânsia de justiça, bolsas e cotas são necessárias como paliativos, distribuindo pequenas ajudas aos pobres e pingando negros na universidade. Não devemos recusar esses instrumentos de discriminação afirmativos, mas tampouco comemorar a necessidade deles.

O Brasil é um país dividido, com uma sociedade partida. Bolsas e cotas são migalhas necessárias, jogadas de um lado para o outro, mas não levam a uma revolução que abra a porta por onde os excluídos atravessem para a modernidade, vivam plenamente sem necessidade de bolsas ou cotas. Essa porta é a escola igual para todos, capaz de quebrar privilégios e levar o Brasil a um salto civilizatório.

Diante da pobreza de idéias, divididas na superficialidade e no simplismo, essa opção exige um debate hoje impossível. A prova é que um artigo como este será certamente recusado, tanto pelos que defendem quanto pelos que se opõem às cotas e às bolsas. Acostumados a defender ou condenar migalhas e pingos, lutam para manter os privilégios, sem buscar soluções que permitam dispensar as bolsas e as cotas. Mas isso seria querer demais da elite brasileira: porque não há bolsas nem cotas de lucidez e radicalismo, nem gosto por soluções definitivas.

CRISTOVAM BUARQUE é senador (PDT-DF).

Artigo publicado no jornal O Globo em 6/12/2008